domingo, 11 de janeiro de 2009

LENDO CUBATÃO


Cubatão, atenta no que digo,
E deixa eu ler-te o imberbe rosto...
Vejo, pelas linhas que ele tem,
Guerras que, valente, enfrentaste,
Aos olhos salsos dos sambaquis.
E enxergo-te a tostada face
Em araçás, jacatirões,
Bananas, jacas, mexericas,
Dando perfume a tuas glórias,
Como cantou teu filho Afonso Schmidt,
Ao bem louvar-te a fauna e a flora.

Não preciso paga, só ouve a canção
Que flui em teu rosto de rios e serras,
Guarida e piscina de ágeis pirralhos,
Vitrina de peixes, cujos olhos guardam
A nudez antiga de moças risonhas,
Acocoradas, se lavando,
Engrossando as coxas no agacharem-se,
De pito nos lábios, em paixão intensa,
Por artes de botos em candentes taras.

Escuto em teu peito o sangue quente
Do velho povoado em fluxo verde
Nas trilhas infindas de índios, que Ramalho,
Martim, Tibiriçá, e outros, percorreram,
Subindo o íngreme planalto, em caça
Dos tupinambás, valentes guerreiros.

Guarda essas moedas. Olha, estão caindo.
Apanha-as do chão e com elas adquire
Um terreno ao pé de velha estrada serpenteante,
Onde descanses lembranças de DOM PEDRO I,
Que te cobiçou a pele morena, quase aqui deixando
O sêmen da independência.
Descansa a memória também de PEDRO II
E seca as mãos molhadas de MIQUELINA DOMINGUES
Que deu água certeira à sua imperial sede incerta,
Primaverando seus lábios de outono.



Vejo pelas linhas de teu ventre e sexo
A biodiversa cor de tuas aves e raças.
E em tuas pernas, avisto crianças,
A roçarem-te o joelho azul,
E percebo em galhos ninfas solitárias,
Esquivando dos estilingues sôfregos,
Aguardando pássaros de arco-íris,
Na esperança fértil do perene amor,
Vindo de além-mar, da beira do rio, ou qualquer lugar.

E pelos teus pés de barro e ouro,
Noto emancipadores, que, num longínquo 1949,
Impulsionaram nossa rica história,
Onde rodas dentadas ainda marcam presença
E teimam em transformar recursos em riquezas.

Vejo-te os rastros, sulcos, feitos em som, doçura e fúria,
Marcando o mistério contemporâneo de tocar com dedos de aço
Os seios dos teus morros, os teus braços de rios,
Os cabelos dos teus manguezais, o teu corpo, enfim,
Ao pé da serra azul, a fluir no crescendo da história.

E surpreendo-me sobre teu ser,
A brincar de furar rãs com tridentes improvisados,
A estudar com o fito em ser astronauta
E roubar o mel da Ursa Maior,
A trabalhar e ser artista,
Só para registrar o melhor do ser no espaço.

Cubatão, assim te vejo e sinto, da cabeça aos pés,
E descubro-te, Alteza Serrana,
Como passista mítica dos sambaquis,
Enquanto o enredo de teu corpo se fortalece,
Convertendo a esperança em samba
Molengo e alegre, por artes do amor,
Que encharca presente, passado e futuro de sentido.

Um comentário:

  1. Parabéns.Belo texto. Você é um grande escritor da alma cubatense. Se você me permite o plágio...

    ResponderExcluir